Domingo, Agosto 03, 2008
Novo endereço:
http://panodechao.wordpress.com
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Segunda-feira, Novembro 13, 2006
O príncipe.
Ursula era uma dona solitária. Sem parentes ou amigos ou gatos.
Um dia, Ursula estava voltando para casa quando viu um pé no meio da rua. Pé sem corpo mesmo. Só o pé. Um membro perdido tão comum quanto bituca de cigarro.
A poucos metros dali havia uma caixa de sapatos. Cuidadosamente, ela pegou o pé e guardou na caixa.
Já em casa, foi até o quintal e cavou um buraco na terra.
Plantou o pé. Regou o pé.
Alguns dias depois já se via um princípio de tornozelo.
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Terça-feira, Outubro 31, 2006
The Egg Man
Levantou e olhou pela janela. Inspirou profundamente o ar gelado do dia-que-amanhece e prosseguiu com os preparativos. Lavou o rosto. Escovou os dentes. Limpou as unhas e comeu ovos no café da manhã. Vinte ovos.
Pensou em tirar o pijama mas achou que seria dramático demais. Caminhou mais uma vez até a janela e saltou.
Ninguém entendeu absolutamente nada. Edmundo era um cara bonitão, 32 anos, cheio de mulheres aos seus pés e completamente apaixonado por uma mocinha delicada com quem iria se casar em breve. Sem contar que havia acabado de ser promovido na empresa e já tinha recebido mais duas propostas milionárias. Saúde? Perfeita. E a família ia muito bem, obrigado. Mãe, pai, irmãos, cachorro e papagaio. Todos felizes, saudáveis e orgulhosos do Edmundo prodígio.
O Edmundo prodígio que pulou.
Mas pulou por quê?
No velório, um sujeito clamou - aos prantos! - que o Ed havia atingido o apogeu da vida e já não desejava mais nada. A mãe quase desmaiou de tristeza pela plenitude do filho. As outras pessoas balançaram a cabeça em sinal de aprovação. O sucesso era o único motivo possível.
Ledo engano.
Alguns dias depois encontraram um bilhetinho no seu apartamento:
"Eu sempre quis virar omelete. Hoje o sol e o asfalto estão propícios.
Adeus. Eggmundo."
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Domingo, Setembro 17, 2006
Mais um para jogar no lixo.
A lixeira transbordava há semanas. Mas para quê limpar a bagunça? Seus textos eram dignos daquele caos. Não prestavam. Nem eles, nem tudo mais que andava acontecendo. Ela gostava de bancar a cética, mas a verdade é que nada lhe tirava da cabeça que aquele era um período destinado a ser ruim.
Sentou mais uma vez em frente ao caderno e levantou a caneta. Desistiu. Não valia a pena gastar mais tinta com aquela loucura. Sabia muito bem o que estava sentindo mas não gostava de admitir a fraqueza. E era fraqueza: estava desesperadamente apaixonada.
Não sabia como agir. É verdade que a fome não havia perdido - nunca perdia a fome. Contudo, passou a se preocupar com o peso. Ela não queria escrever. Queria estar bonita. Radiante! Queria dançar o dia inteiro na esperança de que fosse notada. E cantar para que alguém ouvisse. Queria um vestido novo. Branco com florzinhas amarelas e um decote nas costas. Queria ser admirada.
Estava desesperadamente apaixonada e isso a apavorava.
Não que tivesse medo de se envolver. Ou das renúncias. Ou de se machucar.
Não era nada disso.
O que lhe matava de medo era a consciência dos seus sentimentos. A idéia de que já não era possível fugir. De que a pessoa que ela fora já não existia. Do seu destino. E era o destino: estava destinada a viver apaixonada.
Eternamente apaixonada por alguém que nunca conheceu.
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Sábado, Setembro 16, 2006
Da carência e do famoso draminha
Estou triste.
Tão triste que penso:
essa tristeza merece um choro.
Não escorre lágrima.
Bosta! Nem isso eu faço direito.
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Terça-feira, Setembro 12, 2006
Veio a inspiração durante um chat com gente estranha no msn. Resolvi chamá-lo de conversa no msn.
Conversa no msn
Elisa diz:
Sou a minha identidade
A margarida laranja
A bola de futebol
Cadeiras na praia
motocross
palmeiras
Pato de borracha
Lançamento de foguete
Mas nada me deixa mais feliz.
Nada é tão gostoso
Quanto ser
Um cão amistoso.
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Domingo, Agosto 27, 2006
Nostalgia
a mãe (sugestiva) - Pra quem você está se arrumando tanto?
a menina - Para as possíveis fotos que tirarei lá.
a mãe (ainda sugestiva) - E vai mostrar essas fotos pra quem?
a menina - Para mim mesma num futuro distante.
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Segunda-feira, Agosto 14, 2006
A descoberta
Ela havia nascido para amar. Desde pequena vivia ansiosa pelo dia em que saberia o gosto do primeiro abraço, do primeiro beijo, da primeira vez. Sonhava com o seu príncipe encantado, com piqueniques românticos, passeios de mãos dadas e tardes de domingo no cinema. Sabia estar destinada a uma grande paixão e vivia a espera dela.
O tempo passou. Veio o primeiro beijo, o primeiro namorado, a primeira vez, o primeiro término. Vieram mais alguns namorados e outros términos. Tudo caia na rotina. Beijar passou a ser banal: não havia mais magia. Só saliva.
Por fim, ela deixou de se interessar pelo amor. Deixou de pensar em casamento e em finais de tarde assistindo ao pôr-do-sol. Buquê de rosas? Causava náuseas. Isso e qualquer sentimentalismo barato...
Já tinha desistido de voltar a sentir qualquer sintoma de paixão, quando aconteceu. Bem ali, na mesa de bar. Corou e se afastou rapidamente. Estava meio trêmula. Felizmente, ninguém parecia adivinhar-lhe os sentimentos obscenos. Nem mesmo ele. Voltou a se aproximar de leve - como que por acidente - e permaneceu ali, cheia de súbita alegria: após ter passado a vida inteira buscando o amor em sexo e beijos asmáticos, havia, inocentemente, descoberto uma festa de borboletas em um leve roçar de braços.
Trilha sonora: Coisas Pequenas (Zé Rodrix).
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Quinta-feira, Agosto 10, 2006
Como preencher o vazio?
Se não pode ser suposto,
não suponha.
Supor dói.
(26/05/2006)
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Quarta-feira, Agosto 09, 2006
Fale com.
Se algum dia lhe faltar a minha mão
Tente procurar o meu pé...
(2002)
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Terça-feira, Agosto 08, 2006

Meditação
Curar o corpo pelos sentidos
E os sentidos pelo co(r)po.
(17/12/2005)
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Segunda-feira, Agosto 07, 2006
A verdade
É uma melancia.
Seria verde ou vermelha?
(17/12/2005)
[Só rapidinhas essa semana]
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Quinta-feira, Julho 27, 2006
Bancando a concretista.
Capof
Tro
peço
N'
uma pedra.
cas
calhos choca
lham aos passos
ri t mados
ca
i a
tar de
ca(io) eu.
(13/03/2006)
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Quinta-feira, Julho 20, 2006
A maca de vaca
Isso é uma história verídica. Aconteceu mês passado. Eu havia acabado de perder todo (ou quase todo) o meu cabelo após uma escova progressiva mal sucedida e andava muito nervosa. Minha mãe resolveu que eu precisava me acalmar e marcou um horário para uma sessão de Cinesiologia. Um médico havia indicado essa terapia pra ela.
- O que é isso mãe?
- Ah! Vão tocar em pontos do seu corpo para ajudar você a ficar equilibrada.
Ou era acupuntura ou era pornografia. Ao menos, é o que eu imaginava. Mas estava redondamente enganada.
Entrei no consultório e senti que havia algo errado. A médica tinha o cabelo pintado de muito louro, estava vestida com uma espécie de poncho roxo e tinha cara de pincher. Não entendi nada. Não era para ser algum japonês ou um índio gostosão ou algo assim?
Após o susto, dei uma olhada pelo resto do aposento. Mesa, computador, diploma, vaca, janela... VACA????!!!
Vaca. Eu juro. A maca do consultório tinha estampa de vaca malhada. Se eu já estava desconcertada com a médica, imaginem depois dessa? Não estava entendendo mais nada. A qualquer momento a médica começaria a latir pra mim.
- O que te trás aqui? - Ufa! Entendi todas as palavras.
- Não faço a mínima idéia. - eu não poderia mentir no estado de choque em que me encontrava. Como é que eu ia saber o que me levou a um consultório daqueles?
- Pois bem. Deite-se.
Deitei. Na vaca. Ops. Na maca. Respirei fundo e procurei me concentrar. Afinal, pinchers loiros também merecem respeito. Eu não podia rir. Eu não podia rir. Eu não podia rir.
- Dê-me seu braço.
Eu dei e ela colocou uma mão no meu braço e com a outra começou a balançar o meu cotovelo. Prendi a respiração. Aí ela deu um tapinha na minha testa. Explodi. E não consegui parar mais.
- É normal. Você não consegue controlar esses reflexos no seu braço.
Eu não tinha sentido reflexo nenhum. Talvez a crise de riso fosse efeito colateral.
Com o passar do tempo fui me acostumando com o fato de ela não falar nada e continuar balançando o meu braço. Fiquei contando as janelas do prédio vizinho até que ela rompeu o silêncio:
- Você é bem autocrítica, não é?
- Sou? Não sei.
- É sim. Estou vendo aqui.
(Vendo aonde? No meu colovelo?)
- Você tem muito medo do fracasso, não é?
- Sim.
(Eu e o resto do mundo)
- Hum...
Ela continuou balançando o meu cotovelo.
- Agora eu quero que você pense no fato de que você é crítica demais consigo mesma e bata com os dedos indicador e médio da mão direta no dedo mindinho da mão esquerda.
Pare e pense nessa cena: Elisa, deitada numa vaca, batendo com dois dedos no dedo mindinho. Não não. Acho que você não está conseguindo imaginar direito. É surreal demais.
De toda forma, continuei batendo até ela me mandar parar.
- Pode parar.
Parei e esperei alguma explicação. Ela não explicou. Mal eu acabei de bater e ela já havia catado o meu cotovelo novamente. Dessa vez, eu me entreti com os cadarços imundos do meu All Star, com um aquário sem peixes perto da janela e com o fato do céu estar azul e a água do mar ser azul e o ar e a água serem incolores... É que o nitrogênio em grande quantidade... FOI SÓ UM EXEMPLO! FICA QUIETA, ELISA!... Desculpa.
- Isso começou quando você tinha sete anos.
- O quê?
- Esse seu problema. De você ser muito autocrítica. Começou quando você tinha sete anos.
- Ah é?
- Sim. Peraí.
O peraí era para ela fuxicar mais no meu cotovelo (e, agora, no meu passado).
- Foi um problema com professor. Você se lembra?
- Não.
- Bata no dedo mindinho tentando focalizar essa época.
Que época? Que problema? Ai céus... Mindinho de novo. Cotovelo de novo. E então algo impressionante:
- Estou vendo que recentemente você está tendo alguma crítica com relação ao seu físico.
- Minha aparência?
- Sim.
- AAAAAH! Meu cabelo! Ele estragou e eu tive que cortar! Isso me estressou muito.
- Isso já aconteceu comigo também quando era mais nova. Pintei meu cabelo de preto, não gostei, fui clarear e ele caiu. Tive que comprar uma peruca.
Passei a simpatizar mais com ela. Ainda que pincher não seja a minha raça preferida, adoro cachorros. Além do mais, sempre me identifico com pessoas que tenham tido problemas parecidos com os meus.
- Puts! Que bom que o meu cabelo não caiu todo...
- É. Bata no dedinho pensando no seu físico.
- ...
Pois é. A simpatia acabou. E a consulta também.
Segundo ela, eu não tinha grandes problemas e não precisaria voltar lá. Só com aquela sessão, todas as minhas frustrações acabariam e em dois meses eu seria uma pessoa completamente equilibrada.
Ainda não senti grandes diferenças. Mas conversei com a minha mãe e ela falou que quando eu tinha sete anos a professora me colocou num grupo especial na turma porque eu não parava quieta e não me concentrava nas aulas. Vai saber...
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Sábado, Julho 15, 2006
O fim da desculpa esfarrapada
Provavelmente é o dia mais frio do ano. Você acaba de chegar em casa. Tira os sapatos, a calça jeans, o sutien. Coloca uma calça larga, velha e rasgada e mergulha debaixo dos cobertores.
E é aí que o telefone toca.
- Olá! Já chegou em casa? Tô ligando pra falar que, antes do show dos Sonicos QI, vamos passar na casa do Gustavo e de lá na casa da prima do Marcelo. Parece que a tia-avó dela está doente (narrativa de meia-hora sobre a doença da velha). Então vamos encontrar a turma que vai estar esperando lá nas quatro pilastras. Parece que o pessoal quer dar uma passada no recanto antes que ir para show. Já comprou seu ingresso? Que horas passo aí?
Você já estava dormindo desde que ouviu algo sobre secreções, mas acorda assustada com a última pergunta. Coça a cabeça e começa a levantar da cama. O frio é insuportável. E agora?
- Sabe o que é? Minha cabeça está estourando e hoje estou com uma cólica de matar e tenho que estudar porque estou atrasada com a matéria e a menina que mora comigo está com problemas familiares e eu não posso deixá-la sozinha e estou sem dinheiro e tenho que arrumar a casa e... Acho que hoje não vai dar.
- Hum... Que pena. Fica para a próxima então.
Você suspira aliviada ainda que saiba que ninguém acreditou em uma só palavra do que disse. Do outro lado da linha, a amiga disca para o resto da turma e - ainda que não tenha acreditado em nada - conta a sua história triste para todos. O resto da turma deseja melhoras para você, mesmo sabendo que é só mais uma desculpa esfarrapada. Inclusive, no outro dia vão lhe perguntar se já se curou.
- De quê? - sua memória nunca é das melhores.
- Da cólica e da dor de cabeça.
- Ah! Já me curei sim. Tô beeem melhor. Obrigada.
E fica por isso mesmo.
Afinal, a garota mentirosa da história sou eu.
Agora pergunto: para quê toda a encenação? Simples. Para evitar a chamada insistência. As pessoas respeitam compromissos e doenças, mas não têm a mínima consideração pela preguiça alheia.
- Ah! Não vou não. Estou com preguiça.
- Que preguiça o quê! Levanta daí e vamos embora! Oito horas eu passo aí.
- Não! Estou com preguiça mesmo! Não quero ir!
- Larga de frescura. Isso passa. Oito horas tá bom, né?
- Eu não vou não. É sério. Estou meio gripada, indisposta, com dor de cabeça...
- Hum... Que pena. Fica para a próxima então.
É sempre assim. Há um preconceito profundo com relação à preguiça. A coisa é tão séria que alguém que diz estar com preguiça - ao invés de inventar desculpas - é preguiçoso. É preguiçoso. Assim mesmo. Ou você já ouviu alguém falar que fulano está preguiçoso?
Talvez essa necessidade de inventar desculpas seja por causa da Bíblia. Afinal, mentir nunca foi um dos sete pecados capitais. Aposto que até Jesus inventava motivos para não sair debaixo das cobertas.
- Não, João. Hoje não posso curar a lepra da menininha. Fiquei de falar com o Papai. Você sabe como Ele não gosta de ser contrariado, né?
Pois querem saber? Nunca mais deixo de expressar a minha preguiça!
- Mas é uma preguiçosa mesmo...
Pensando bem, acho que me trancar no quarto e desligar o celular não é uma má opção...
E fica por isso mesmo.
(14/07/2006)
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Sexta-feira, Julho 07, 2006
Ode ao cômico
Escrevo agora, apenas porque os meus textos antigos estão acabando - os menos ruins já acabaram - e eu nunca recebi tantos comentários num mesmo dia. Empolguei. Resolvi testar a minha habilidade de escrever sem idéias.
Não estou me saindo muito bem.
Mas percebi uma coisa: é muito mais fácil escrever um texto sério do que um cômico. Sentimentos são sempre mais valorizados do que uma piada. E é tão difícil fazer uma boa piada!
Veja bem. Agora são 19h56min.
As pontes entre nós dissipavam-se na fumaça do receio.
Você ignorou a fragilidade do laço e eu fui surpreendida na escuridão.
Hoje já não há fumaça ou ponte. Já não há eu. Ou você. Ou nós.
Há apenas o desejo de permanecer na luz.
Agora são 20h00min. Quatro minutos. E aposto que se eu postasse isso, um monte de gente acharia bonito. Ao menos, a minha mãe acharia.
Por outro lado, estou no computador há muito mais de meia hora tentando encontrar uma idéia divertida e não sai nada! NADA!
É triste admitir isso para mim mesma, mas estou chegando à fatídica conclusão de que eu não sou engraçada. Sou séria e dramática.
Sempre pensei o contrário.
Despeço-me por aqui, completamente desolada e com inveja de todos os cômicos do mundo.
(Elisa então joga o lenço da sacada, coloca as costas da mão na testa e desmaia de desgosto no ato final.)
(07/07/06)
(Olha! Ano que vem vai ser 07/07/07!)
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Conselhos divinos
Menina -> Se tudo parece bem, por que sinto tanto medo?
Deus -> Quando a esmola é demais, o santo desconfia.
Menina -> E devo desconfiar?
Deus -> A colher é que sabe a quentura da panela.
Menina -> Tem razão. Mas é que sou tão insegura...
Deus -> A maneira mais rápida de se tocar uma boiada é devagar.
Menina -> Estou indo rápido demais?
Deus -> Bom soldado economiza munição.
Menina -> Não compreendo...
Deus -> Da abundância, vem o tédio.
Menina ->Então, devo falar menos...
Deus -> A vida deve ser um livro aberto com páginas arrancadas.
Menina ->...e manter o mistério. Certo?
Deus -> De que adianta o vento estar a favor, se não se sabe pra onde virar o leme?
Menina -> Aaah! E como eu descubro isso?
Deus -> Problemas posteriores serão resolvidos posteriormente.
Menina -> Nossa! Sua sabedoria me impressiona às vezes...
Deus -> Metade do pagar está no agradecer.
Menina -> E a outra metade?
Deus -> Mais faz diligência, que dinheiro.
Menina -> Ah sim... Prometo ser uma boa garota, então.
Deus -> De boas intenções, o inferno está cheio.
Menina -> ...
Deus -> Quem cala, consente.
Menina -> Isso já está começando a me irritar...
Deus -> Cabeça vazia é oficina do Diabo...
Menina -> Talvez ele seja menos chato...
Deus -> Não se serve a dois senhores ao mesmo tempo.
Menina -> Mas eu só procuro respostas!
Deus -> Quem avisa amigo é.
Menina -> E quem escuta conselho de tolo, ainda é mais tolo que ele... Cansei de enrolação. Cadê o Diabo?
(25/11/2004)
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Quinta-feira, Julho 06, 2006
Texto babaca de alguns anos atrás.
É comigo?
A garota atende ao telefonema do namorado:
- Oi! Tudo bem?
- Tudo. Você vai?
- Vô...
Nisso, o avô entra na sala.
- O que foi, minha filha?
- Não vô...
- Mas você não disse que ia?
- Vô!
- E agora? O que você quer? - o velhinho, aposentado, sempre queria ser prestativo.
- Vô, nada!
- Se decida! Vai ou não vai? - o namorado estava confuso.
- Vô caralho!
- Olha a boca menina!
- Não vô! Não é com você...
- Já entendi! Você se cansou de mim e não quer mais sair comigo. Tudo bem. Vamos terminar tudo!
- Eu estava falando com meu vô, e não com você!
- Tava falando comigo? Não estou entendendo...
- NÃO VÔ...
- Não vai??? Eu sabia! Você não me ama mais!
- Não fale isso... EU TE AMO!
- Minha netinha querida! O vovô também te ama.
E deu um abraço apertado na neta, que deixou o telefone cair. A garota ficou irritada e acabou se exaltando:
- Eu não estava falando com você. PUTA MERDA!
- Que palavreado horrível! Vai ficar de castigo! UM MÊS SEM SAIR!
- Mas vô... - a menina chora enquanto apanha o telefone no chão.
- Não vô...
- Está falando com o seu avô? Eu estava ouvindo uma discussão...
- Não. É com você mesmo. Eu não vô...
- E não adianta insistir. Você está de castigo e ponto final!
- Eu não estava falando com você.
- Comigo ou com o seu avô?
- Com o meu avô. Estou falando com você. EU NÃO VÔ...
- Você é muito confusa. Nunca se decide. Está tudo terminado!
- Por favor não desligue. - soluça a garota - Deixe-me explicar para que a situação fique claaara...
Então, a empregada vem correndo da cozinha:
- A minina me chamou?
- Não é com você...
- Nunca é comigo, né? Acabou mesmo. Tchau. - o namorado desliga o telefone
- Ôxente! Mas eu ouvi você me chamar!
- Não chamei não, Clara.
- A minina vai sair?
- Não vô...
- Chega de insistência! Já para o seu quarto!
(2003)
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Terça-feira, Julho 04, 2006
 Fotografia
Não há passado
Ou lembranças.
Há outras pessoas
Que foram eu.
(13/03/2006)
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Sábado, Dezembro 03, 2005
Nada para fazer em um dia de sol
A borboleta voava
BOR - BO - LÊ - TÁ
Os lábios se encontram duas vezes
BOR - BO
E a língua salta por entre os dentes
LÊ...
Para repousar num estalo
TÁ
BOR - BO - LÊ - TÁ
A borboleta pousou.
(agosto, 2004)
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Sexta-feira, Novembro 18, 2005
Sussurrastros
Salto no céu de som
Tem sabor de suspiro
Sinfonia de sossego
é a melodia do meu sonho
Silêncio. É segredo.
Sono suave sono
Sono suave sono
Sono suave sono
Sono TRINTA suave
TRINCOS sono suave
Sono TRINCANDO sono
TRINTA TRINCOS TRINCANDO
TRINTA TRINCOS TRINCANDO
TRINTA TRINCOS TRINCANDO
Sete horas.
Maldito despertador.
(2005)
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Quinta-feira, Novembro 17, 2005
De repente
Nunca acreditei no de repente. Para mim, as coisas sempre tiveram que ser construídas. Nada de acontecimentos mirabolantes instantâneos. Férias perfeitas? Três meses de planejamento prévio. Amor? Pra mais de dois anos.
Até que um dia, como outro de qualquer primavera, eu estava andando e vi o sujeito. De repente, nos apaixonamos, ele me deu um anel e estávamos correndo para o hospital porque a bolsa d'água havia estourado. Pisquei os olhos. As crianças formadas, o funeral do velho e eu aqui falando para os netos tomarem cuidado: chega uma hora na vida em que tudo é de repente.
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Promessas de amor
Não vivo sem você. Foi o que ela lhe disse. Pouco importava o verdadeiro significado da afirmação. O que ela queria é que ele continuasse ali. Que ele viesse toda vez que fosse chamado. Que não vivesse sem ela.
Até que, um belo dia, ele morreu.
- Fazer o quê? - ela suspirou.
Foi então achar outro sem o qual não pudesse viver.
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Quarta-feira, Novembro 16, 2005
 Fome
É fato: o mundo morreu.
Minha vida foge de mim
como que por difusão.
Já não há gosto
Senão o gosto do branco.
[Inspired by Victor - 16/11/2005]
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Em homenagem a greve da UFV.
O mesmo reflexo
Não há o que sentir
quando a rua é sempre a mesma
E o relógio, silencioso e ligeiro,
rouba o meu tempo sem piedade.
Antigamente, o relógio era outro
Trezentos e sessenta graus, uma eternidade.
Cada passo, uma aventura.
Hoje, o céu é sempre o mesmo
A cartomante perdeu o encanto
Os dias se repetem...
E eu?
Eu espero a vida passar...
[agosto, 2004]
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Copo Descartável
Não me dê trabalho.
Apenas mate a minha sede.
Quero beber da sua fonte.
Nada mais.
Tua frágil carcaça, suja e seca,
Já não me serve.
Rasgarei teu corpo,
Triturarei tuas entranhas,
E reduzir-te-ei a nada.
O lixo é o teu destino.
Matei minha sede
Isso me basta.
. . .
In memorium
Acordei em Viçosa e, quando vi, estava em Sete Lagoas. De manhã, meu pai ligou falando que a vovó não estava passando bem. Pouco depois, a prima liga perguntando se quero voltar com ela de carro para a cidade das lagoas. Claro! Arrumei a bagagem num piscar de olhos. Queria ver a minha avó. Poderia ser a última vez.
Não deu. No meio do caminho recebi a notícia. Achei que ia ser pior. Nunca tinha visto um cadáver conhecido. Parecia um boneco. Não era a minha avó. Última lembrança que tenho dela é da velhinha fraquinha na cama que me via, abria um sorriso e ficava repetindo: muito linda! muito linda! Muito linda era ela. Não aquele boneco.
Em relação a morte, para mim, a maior surpresa está sendo a objetividade com que a vejo. Melhor. A automaticidade - existe isso? -. Minha avó foi desligada. Quando cheguei na cidade, ouvi o primo falando do corpo. O corpo. Não a Dona Jandyra. A grande matriarca. Só o corpo franzino e pequeno no meio daquele monte de flores fedidas.
Talvez tenha sido melhor não chegar a tempo. Um último adeus. Nunca é bom estar com o diskman quando a pilha acaba. Sempre fica aquela vontade de ouvir o resto da música. E para quê? Tenho a música toda aqui na minha cabeça. E ela toca com carinho a avózona que sempre queria nos deixar obesos, a mãe machista do meu pai que me aconselhava a ser menos contestadora, a vovó teimosa que queria tudo do jeito dela, a velhinha alegre e engraçada que mandava a gente sair de perto quando soltava um pum. E lá vem tijolo! É música bonita da mulher linda que foi a minha avó. Forte, determinada, impositiva.
Último adeus o caramba! Fico com o meu "muito linda".
(01/11/2005)
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Quarta-feira, Julho 07, 2004
Qual é a graça?
Ria-se, de doer a barriga,
do tombo que levou o menino.
Ria-se, cínicamente,
da criança estirada no chão.
Ria-se, com fervor,
do garoto que, envergonhado, sorria.
Ria-se a Aline, o Rodrigo e o Gabriel.
Justo a Aline que, ao chegar em casa,
chorava e desejava outro nariz.
Justo o Rodrigo que, de tão míope,
mal enxergou o tombo.
Justo o Gabriel que, quando sozinho,
se deliciava com os vestidos da irmã.
Justo todos nós que, ao rir do menino,
nos escondemos no ridículo alheio.
. . .
Quarta-feira, Janeiro 14, 2004
Desensinando
Há muito tempo eu não sento para escrever. Quero dizer, sem que alguém tenha me pedido para escrever. Porque não existe escrita encomendada. Quando somos intimados, não escrevemos com vontade. Com a alma... Escrevemos com a preocupação de não errar na gramática, na coerência, na caligrafia. Com a apreensão de satisfazer as vontades do leitor. Escrevemos dentro de limites. Sem poder vencer as barreiras e os obstáculos.
O jornalista, por exemplo, não escreve. Descreve. Mas não são apenas os jornalistas. Muitos poetas também não sabem escrever. Estão sempre preocupados com as sílabas poéticas, com as rimas, com os sonetos. E ao final, sempre obtém um poema perfeito. Sem equívocos. Um poema morto.
Ora! Se o homem é um ser falho, sua escrita também deve ser imprecisa. O ato de escrever pelo raro prazer de escrever é um dos maiores dons humanos. É a chave de todos os anseios ocultos. A liberdade da alma. Algo simples, pueril e maravilhoso. Algo que está sendo tirado de nós.
Como sabemos, a literatura nasceu de preceitos, normas e formas pré-moldadas. Ganhou estilos. Categorizações. Coisa de primeira linha. E assim, a verdadeira escrita adoeceu. Passou a ser julgada. Classificada. E aquele sentimento de eternidade e alvedrio, expirou.
Muitos professores de português dizem ter a solução para o massacre deste hábito divino que é a escrita. Imagine! Logo eles que são incapazes de escrever, proclamam que os culpados são a televisão e o computador...
Os verdadeiros responsáveis são eles mesmos, os professores. Eles corrigem e limitam aqueles que ainda devaneavam com lápis e papel na mão. Inventam métodos complicadíssimos de escrita e transformam ela em algo chato. Os professores nos desensinam a escrever. E saiba você que qualquer criança sabe escrever. Para isso, elas não precisam saber o alfabeto. Nem regras de acentuação. E quanto a palavras, pontos, vírgulas e reticências? Não. Nada disso é necessário! Ao contrário do que te ensinaram, a escrita é a materialização da alma. Basta lápis e papel, alguns sonhos na mente e, quem sabe, um desejo incontrolável de colocar um sapo na bolsa da professora...
(2002)
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Garota Enfadonha
Sabe quando a nossa vida está tão perfeita que chega a ser monótona? Pois é. Essa é a minha vida desde o dia em que eu nasci. Já tentei entrar em depressão, me tornar uma rebelde assassina... teve uma época em que eu até quis ser escritora! Baboseiras. Todas em vão. Essa ociosidade não tem fim!!!
De qualquer forma, eu já me conformei com esse enfado. Não adianta lutar contra ele. Por mais planos que você crie, por mais sonhos que alimente... Sempre adiará tudo! A desculpa que eu criei para mim mesma foi: "Elisa, você é menor de idade. Deixe suas aventuras para depois dos 18 anos." O mais engraçado disso tudo é que quando eu tinha 5 anos eu sempre aprazava as minhas fugas para depois que eu fizesse 10 anos, porque então a minha idade teria dois algarismos. Eu nunca cheguei a fugir...
Acontece que ficar parada diante disso está acabando comigo! Agora pouco eu estava lendo o que eu tinha escrito e percebi que seria praticamente impossível escrever mais um parágrafo. Resolvi escrever isso. E rápido! As raras coisas que penso têm que correr para o papel. Mesmo que não tenha sentido nenhum. Mesmo que o pensamento não tenha sido meu. Tanto faz. Aforismos são preciosos nessa Era de Tédio.
Confesso. Estou com medo. Creio que a maioria das pessoas não faz idéia da força que essa monotonia exerce sobre mim. Estou completamente possuída. E isso me faz ficar mentecapta! Ridícula! Não penso...
São exatamente 15:08, do dia 20 de março e eu comecei a sentir uma enorme vontade de parar de escrever e ir dormir. Devo resistir? Só mais um pouco. Vou resistir tempo suficiente para avisar qualquer pessoa que ainda consiga ler para continuar lendo. E continuar escrevendo. E continuar a elaborar planos. E continuar a sonhar.
Somos movidos a sonhos. E eu cometi o equívoco de parar de sonhar. Achei que não eram necessários já que não eram reais. Percebi que não existe nada mais real que o sonho. Tarde demais! Esse incrível sentimento de inutilidade tomou conta de mim. Pior! Eu não posso nem dramatizar esse infeliz fato para que sintam um pouco de pena de mim, porque eu não tenho mais criatividade para isso... Eu tenho sono. Muito sono. Ah esquece! Cansei!
Boa noite para você. Quero dizer: boa tarde. Espero que tenha aproveitado qualquer coisa desse monte de palavras empilhadas. Eu releria tudo e corrigiria os erros, mas não tenho capacidade para isso. Tenta entender aí.
(2002)
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Tudo bem com você?
É incrível como respondemos à pergunta "Tudo bem?" sem pensar. Quero dizer, sempre respondemos que está tudo bem. Mas você já parou para pensar se realmente está? Claro que não. Como humanos, sempre há algo que nos aflinge. Na maioria das vezes - para não dizer sempre -, nós só falamos que está tudo bem para evitar perguntas do tipo "o que você tem?". E quando isso é inevitável, respondemos sempre com o mesmo "NADA". Claro que, na verdade, o "nada" é alguma coisa. NADA é apenas para dizer: NADA que te interesse. Ou então: NADA que você realmente queira saber. Muitas vezes quando te perguntam "O que você tem?", querem apenas ouvir "NADA"...
Isso mostra o quanto robotizados nos tornamos. Até as nossas conversas são previsíveis... TUDO o que fazemos é "pré-estabelecido". Até as nossas palavras não nos pertencem mais, já que são sempre baseadas em algo que lemos ou ouvimos anteriormente. Somos a geração "intertextualizada", ou talvez nem isso....
(2002)
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